O fim da motivação pela cenoura

As recompensas extrínsecas podem ser eficazes no curto-prazo como incentivos à performance, no entanto, a médio e longo prazo, acabam por conduzir as pessoas a comportamentos negativos e a destruir a motivação da pessoa mais motivada. Fique a saber porque é que a motivação da cenoura e do chicote não funciona.

A motivação na idade da pedra

Há 50 000 anos atrás o homem estava apenas preocupado com a sobrevivência. As suas grandes motivações eram procurar comida, bebida, lugares seguros e reproduzir-se para passar os seus genes. A sua única motivação estava relacionada com a sua sobrevivência. Toda a sua vida era construída à volta disso.

A industrialização trouxe uma nova forma de motivar

Até há alguns séculos atrás, as necessidades básicas eram a força motriz da humanidade. Tudo começou a mudar com a industrialização. Os ciclos de produção tornaram-se mais complexos e o homem começou a utilizar incentivos de recompensa e punição – também conhecidos por cenoura e chicote– para dar um novo ímpeto à produção.

O que se pode esperar das recompensas e punições

A estratégia que está por trás deste tipo de incentivos é a de que as recompensas reforçam o comportamento desejável. Com a expectativa de salários mais altos em mente, os trabalhadores da altura carregavam mais carvão e os atuais respondem mais rapidamente aos emails.

Por outro lado, a punição, tem como intenção prevenir comportamentos indesejáveis. Alguém que seja repreendido em frente da equipa diminuirá a tendência para se atrasar, por exemplo.

Os motivadores extrínsecos governam a esmagadora maioria das organizações

Os empregadores que em geral depositam grande fé nas recompensas extrínsecas, consideram que se os seus colaboradores não forem conduzidos pelas consequências da cenoura e do chicote, não vão demonstrar entusiasmo pelo trabalho nem assumir na plenitude as suas responsabilidades. Nesta filosofia, quem está em posições de chefia tem que dirigir e controlar os trabalhadores.

Apesar de, nos dias que correm, algumas empresas terem relaxado no dress code ou mesmo nos horários de trabalho para tentarem manter os empregados felizes, a motivação da cenoura e do chicote continua a dominar o mundo corporativo.

As equipas de management da maioria das organizações ainda estão convencidas – e atuam nesse sentido – de que o único factor importante na motivação dos seus colaboradores, para além das necessidades básicas, é a utilização de recompensas e de punições.

A cenoura e o chicote podem ter consequências desastrosas

Imagine que em determinada empresa, – vou dar um exemplo do sector automóvel -, é prometido aos mecânicos um bónus se atingirem um determinado objetivo – que pode ser um determinado número de reparações e/ou volume de faturação-, num espaço de tempo definido. É de esperar que este incentivo externo os motive para obterem resultados que satisfaçam os seus clientes, certo? Errado!

Em vez disso, esta estratégia pode produzir efeitos altamente negativos, pois a principal motivação dos mecânicos é atingirem o seu objetivo – o número de reparações ou o volume de faturação definido – para assegurarem a sua recompensa. Por isso, podem sentir-se inclinados a realizar reparações desnecessárias, algo que incomoda profundamente os clientes e causa danos à reputação e à imagem da empresa. O objetivo, que deveria ter como finalidade promover um trabalho eficiente e positivo para os clientes, acaba por resultar em clientes insatisfeitos, mesmo que os trabalhadores estejam a cumprir (a até a ultrapassar) os objetivos individuais definidos.

A cenoura inibe a performance

Num teste de agilidade na índia, foi prometido aos participantes de uma experiência, várias somas em dinheiro se atingissem alguns objetivos de agilidade com uma bola de ténis. Aqueles a quem foi prometido mais dinheiro, ao contrário do que era esperado, obtiveram as piores performances. Os incentivos financeiros colocaram uma pressão tão grande nos participantes, que em vez de aumentarem o desempenho, acabaram por o piorar.

A cenoura inibe a criatividade

Numa outra experiência, foi pedido aos participantes para prenderem uma vela à parede – esta experiência é denominada de ‘o problema da vela- , um enigma cuja solução necessita de pensamento criativo.

Foi oferecido dinheiro aos participantes para resolverem o problema rapidamente. No entanto, em vez de os inspirar, a recompensa acabou por bloquear a sua criatividade. O incentivo pareceu cegá-los, impedindo-os de terem acesso a uma visão mais ampla do problema, resultando em tempos de conclusão muitíssimo mais longos, quando comparados com os participantes que não tiveram qualquer promessa de recompensa.

Conclusão: a cenoura e o chicote não funcionam

Apesar da cenoura e do chicote poderem ter alguma utilidade como incentivos em tarefas rotineiras, como por exemplo, contar stocks ou registar as mercadorias num supermercado, se o trabalho for mais exigente, ou necessitar de criatividade, a motivação da cenoura e do chicote, pode levar a comportamentos incorretos – ou mesmo imorais – e a um forte declínio no desempenho.

Marco Meireles

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