O jogo infinito da liderança

Para muitas pessoas, a vida e a profissão são jogos de soma zero – como o futebol ou mesmo o xadrez -, em que os jogadores são conhecidos, as regras são fixas e a finalidade é clara: ganhar. Em consequência disso, há vencedores e vencidos.

Este tipo de jogador, com um mindset finito, concentra-se apenas em ganhar. Ao ostentar as suas conquistas, vitórias, méritos e títulos (que até pode ser o nome pomposo da sua profissão no cartão de visita) exibe a sua superioridade e, com ela, tenta exercer a sua influência sobre os outros. Para os jogadores finitos até as conversas mais simples e ocasionais são encaradas como jogos para ganhar – não discutem ideias, apenas tentam convencer o oponente da sua verdade. Provavelmente conhece alguém assim.

Por outro lado, nos jogos infinitos, os jogadores entram e saem, as regras mudam e a finalidade é apenas continuar no jogo. Os jogos, naturalmente, vão aumentado de dificuldade, exigindo que os jogadores evoluam para se manterem no jogo. Qualquer um, a qualquer hora pode participar no jogo.

O jogador com um mindset infinito, tem a sua atenção no presente, onde pode realmente fazer a diferença. Para ele o passado é história e não determina o futuro, pois o futuro de um jogo infinito está em aberto e cheio de possibilidades. Por essa razão, está muito mais interessado em oferecer uma visão que encoraje os outros a participar no jogo, em vez de impor uma solução final para um problema.

Também não está interessado em ganhar ou em demonstrar a sua superioridade porque para ele só o jogo importa. Joga o jogo pelo jogo e responde aos desafios do jogo, não rebaixando ou prejudicando os seus adversários, mas sim, evoluindo. Para o jogador infinito as conversas são interações alicerçadas em dar e receber e, em que ouvir, é tão valorizado como falar.

Alguns gestores estão equivocados em relação ao jogo que estão a jogar. Não existe algo como ganhar de forma absoluta nos negócios, na profissão ou na vida. Se ouvirmos o que dizem, apercebemo-nos facilmente disso. Falam em ser os melhores, fazer parte do top 5 ou em bater a concorrência. São jogadores finitos a jogar um jogo infinito. Não pode dar bom resultado.

Quem joga por essas regras ou para o que parece, muitas vezes, ser o primeiro objetivo – os resultados financeiros – terá muita dificuldade em manter, a longo prazo, os recursos para se manter no jogo, porque, para além da inevitável inércia organizacional, devido ao facto do seu foco estar na consequência (resultados) e não na evolução da atividade, não vai conseguir manter uma força de trabalho motivada, empenhada e engajada consigo e com a organização.

Por exemplo, a empresa de aluguer de filmes Blockbuster, deixou passar três oportunidades para comprar a Netflix, porque o seu foco estava nos bons resultados do passado e não no futuro. Sem surpresa, o seu tempo acabou antes de mudar de rumo.

Por outro lado, líderes com mindset infinito:

1. Defendem causas e criam visões de futuro altamente mobilizadoras, que garantem pessoas comprometidas e empenhadas em contribuir para o progresso da empresa;

2. Protegem as suas pessoas e criam ambientes seguros – fundamentais para a inovação – onde é permitido – e incentivado – experimentar, errar, corrigir e aprender;

3. Apostam nas pessoas a longo prazo, investindo pessoalmente o seu tempo para as desenvolver e, eventualmente, gerar novos líderes.

Desta forma, constroem organizações fortes, inovadoras e inspiradoras. Mantêm a resiliência – porque estão preparados para isso – para prosperar num mundo em constante mudança, enquanto os seus concorrentes, vão caindo ou abandonando o jogo, ao longo do tempo.

Uns estão a jogar para se manterem no jogo e os outros, para ganhar e, por isso, fazem escolhas estratégicas profundamente diferentes, que acabam por colocar os jogadores finitos em dificuldades, por gastarem, com estratégias de curto prazo, tempo e recursos para ganhar.

É como uma corrida. Alguns atletas querem ganhar rapidamente, – imagine corridas de 100 metros – e outros, estão preparados para correr indefinidamente. O que vai acontecer? O corredor de curta distância vai acabar os 100 metros destacadíssimo, mas, eventualmente, acabará por ser ultrapassado pelo ultramaratonista. Até pode recomeçar e terminar várias vezes essa distância em primeiro lugar, mas vai acabar por esgotar os seus recursos e a sua motivação.

Isto foi exatamente o que aconteceu com a Encarta da Microsoft, concebida para se tornar na enciclopédia líder a nível mundial. Para isso acontecer, a Microsoft contratou a nata do profissionais da área e investiu milhões de dólares em infraestruturas e em recursos humanos. Por outro lado Jimmy Wales, sonhou com um mundo onde todas as pessoas, sem exceção, tivessem livre e instantâneo acesso à soma de todo o conhecimento humano. E fundou a Wikipedia. Sem objetivos trimestrais, semestrais ou anuais. Sem identificar a concorrência a abater. Sem definir o que seria ganhar o jogo. Apresentou uma visão mobilizadora – típica do jogador infinito – e permitiu que outros jogadores se juntassem a si para a alcançarem.

A vida, a profissão e os negócios são jogos infinitos. Com que mindset os está a jogar?

Marco Meireles

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